A poesia nordestina nunca mais foi a mesma, desde que descobriu o inconfundível e característico talento do cordelista e poeta Severino de Andrade Silva, mais tarde conhecido simplesmente como Zé da Luz.
O poeta, das terras nordestinas, nascido em 1904 na cidade de Itabaiana, se estivesse vivo, teria completado 121 anos no dia 29 de março.
A poesia de Zé da Luz, não é aquela das tribunas acadêmicas, ela entra nas casas e no imaginário das pessoas que, através dos seus versos, reveem o panorama da sua terra nordestina, as características, os traços, o gosto e até o cheiro da terra.
Os versos do poeta itabaianense, são declamadas de cima de um cavalo, às feiras livres; do matuto sentado numa porteira a um pescador arrancando caranguejo na lama dos manguezais; ela não tem fronteiras. A combinação de cada palavra com seus versos e rimas, cria um elo de nítidas recordações, fazendo com que o nordestino visualize toda a sua trajetória de vida e reviva o nordeste da sua infância “em carne e osso”.
As poesias de Zé da Luz são fortes, pulsantes e imortais, porque não são dele, ele as tomou emprestado da boca, do coração e do sentimento do povo nordestino e lapidou-a em versos cantados com o sentimento de quem ama e conhece sua terra. Quem mais compararia o sol se pondo, com um “grande chapéu de couro na cabeça do infinito”?
Consagrado no folheto, no verso e na cantoria, Zé da Luz também exibiu força em sua poesia, tendo sua obra consagrada erudita e o reconhecimento de escritores como José Lins do Rego e Manuel Bandeira.
Autor de Sertão em Carne e Osso, sua obra-prima foi o livro “Brasil Caboclo”, publicado em 1936, considerado um sucesso para os padrões da época. Neste mesmo ano, nascia o pseudônimo Zé da Luz que o acompanharia até o fim da vida.
“Com esta perspectiva de enaltecer a sua terra natal, expôs sentimentos de saudades, de homem forte, daquele que tem a coragem de mostrar publicamente, em versos; críticas sociais. O paraibano Zé da Luz foi caracterizado como um autor que apresenta aspectos do romantismo, do lirismo, buscando, para além da crítica, uma estética para a sua construção literária”, conta jornalista, poeta, cronista e romancista, José Nunes.
A temática principal da obra de Zé da Luz, especialmente em sua obra “Brasil Caboclo, o Sertão em Carne e Osso”, é a celebração e a valorização da cultura, do povo e da condição do Brasil mais genuíno, o chamado “Brasil Caboclo”. Ele retrata a vida do homem sertanejo, as tradições populares, a natureza brasileira e o orgulho de suas raízes.
Sua poesia é marcada por um forte sentimento de nacionalismo, enfatizando as belezas naturais do Brasil, a simplicidade do povo, suas lutas e sua identidade cultural. Zé da Luz busca valorizar o Brasil autêntico, muitas vezes contrastando-o com as influências externas e as questões de injustiça social. Sua obra é uma celebração da alma do povo brasileiro, com forte apelo social e cultural, propondo uma reflexão sobre as origens e a essência do Brasil profundo.
Seus poemas têm a cor do nordeste, o cheiro do nordeste, o sabor do nordeste. Às vezes trágico, às vezes humorado, às vezes safado ao observar as mulheres tomando banho na cacimba. Quase sempre telúrico como a luz do sol do agreste.
A simplicidade dos poemas de Zé da Luz ganharam asas a partir da leitura numa rádio de Campina Grande, ao final dos anos de 1940. O governador Argemiro de Figueiredo fez publicar pela A União a primeira edição de Brasil Caboclo, um livro que tem a alma do brasileiro dos rincões. Largado ao esquecimento, décadas depois a editora Acauã, de Carlos Roberto de Oliveira, Gonzaga Rodrigues e Nathanael Alves, reeditou esta obra que exprime sentimentos e exterioriza o que está escondido na alma do povo. O poeta Eudes Barros deu a grande definição deste livro:
“Não há nada de artificial, de falso, de literato nos versos de Zé da Luz. É um livro de carne e osso. Um livro que vive. Um livro humano”.
Depois de Catulo da Paixão Cearense, é Zé da Luz o mais interessante versejador sertanejo que apareceu, porque canta a simplicidade do povo, porque sua poesia penetra na alma e se apodera de nós. Tinha gosto pelo belo, a tudo expressando com a pureza da alma. Com originalidade e lirismo, fez realçar e pôs em revelo a beleza da cabocla dos engenhos da Paraíba. Com seu jeito e modo de olhar ao redor, às paisagens deu vida. Denunciou as amarguras causadas pela falta de políticas públicas que ajudassem a amenizar o sofrimento, cobrou solidariedade diante da dor causada pelas mazelas das estiagens. Não aceitava a exploração do homem pelo homem. Poeta que olhava todos como iguais. Talvez fosse um poeta triste.
Zé da Luz, poeta, cuja profissão era alfaiate, ofício herdado do pai, faleceu no Rio de Janeiro em 12 de fevereiro de 1965.
Fonte: Wellington Costa – jornalista, engenheiro, escritor, poeta, pesquisador cultural. Membro da Sociedade Cabedelense de Escritores e Poetas – Acadêmico da Academia Paraibana de Poesia e Correspondente da Academia de Letras do Sertão Pernambucano. Jose Nunes: jornalista, poeta, cronista e romancista; membro da Academia Paraibana de Letras
Fundada em 20 de abril de 2010, a Sociedade Cabedelense de Escritores e Poetas é uma entidade de caráter cultural, sem fins lucrativos, com sede na cidade de Cabedelo.
Sociedade Cabedelense de Escritores e Poetas - SCEP. Todos os Direitos Reservados